Antes de se aprofundar a questão sobre um regresso ao Padrão Ouro é necessário compreender dois pontos fundamentais: a função da moeda na economia e o papel do Ouro na história económica.

Relativamente ao primeiro ponto, o papel da moeda na economia, traduz-se em três funções, a de unidade de valor, a de meio de pagamento (de troca) e a de reserva de valor.

Unidade de valor, porque é a através da moeda que se expressam os valores dos bens e serviços; Meio de pagamento, porque é aceite por todos como meio de troca por bens e serviços; Reserva de valor, porque existe a possibilidade de retenção da moeda, por tempo indeterminado, assegurando-se assim a capacidade de adquirir bens e serviços no futuro.

Relativamente ao segundo ponto mencionado acima, o papel do Ouro na economia, reza a história que desde há 650 anos A.C., na antiga Lídia, actual Turquia, e com o crescimento do comércio, quando foi necessário que surgisse algo que fosse aceite como meio de troca (a moeda) por bens e serviços, esse papel coube primordialmente ao Ouro, por ser um metal durável, facilmente reconhecível, possível de se guardar, portável, divisível, estandardizado, e acima de tudo por haver muita procura sobre ele e a sua existência ser limitada.

Apesar da Prata ter concorrido com o Ouro, como moeda de troca durante vários séculos, o Ouro impôs-se definitivamente no século XIX. O Reino Unido chegou mesmo a adoptar o Padrão Ouro em 1717, mas durante as Guerras Napoleónicas suspendeu esse compromisso e adoptou a moeda-fiduciária, em consequência dos elevados custos da guerra.

Em 1821 adoptou novamente o Padrão Ouro e manteve-o até ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Na segunda metade do século XIX vários países europeus, como Portugal, Alemanha, França, Bélgica, entre outros, seguiram os passos do Reino Unido e também adoptaram o Padrão Ouro. Os Estados Unidos basearam a sua moeda num misto de Prata e Ouro até 15 anos depois do final da Guerra Civil, e assim só a partir de 1880 regeram-se pelo Ouro. (formalmente só entraram em 1900)

Deste modo, o único e verdadeiro período em que realmente vigorou na economia mundial o Padrão Ouro foi entre 1880 e 1914. O princípio deste modelo assentou no estabelecimento de uma taxa de conversão irrevogável entre as diferentes moedas de cada país e o Ouro. De modo a que esse valor de troca entre a moeda e o Ouro fosse constante, a quantidade de moeda de um país era proporcional ao Ouro detido em reserva. As importações e exportações de Ouro eram completamente livres.

Os Estados Unidos fixaram o preço do Ouro em 20,67 dólares e o Reino Unido em 3 libras, 17 shillings e 10,5 pences. O câmbio dólar/libra era assim de 4,867 dólares por libra. Basicamente, o funcionamento do Padrão Ouro era o seguinte: por exemplo, se um avanço técnico nos Estados Unidos levasse a uma diminuição dos preços, devido a uma maior oferta, os preços das exportações norte-americanas desceriam relativamente aos preços das importações, logo os Estados Unidos conseguiam exportar mais e importavam menos. Consequentemente, a balança de pagamentos ficaria com um excedente, levando a uma maior entrada de Ouro nos Estados Unidos e a uma saída do Reino Unido. O aumento do Ouro nos Estados Unidos levaria à criação de mais moeda, e os preços teriam assim tendência para inverter e aumentar, enquanto que no Reino Unido a diminuição das reservas de Ouro levaria a uma redução da moeda, e os preços tenderiam a diminuir. No final, os preços equilibravam e em ambos os países seriam um pouco mais baixos do que antes do avanço técnico nos Estados Unidos.

Quando se assistia a períodos de expansão muito rápida, os bancos emprestavam até ao limite das suas reservas de Ouro, as taxas de juro aumentavam, os empréstimos diminuíam e a economia entrava numa pequena recessão.

O Padrão Ouro criava um mecanismo de estabilidade de preços de longo prazo, para o conjunto de países que mantivesse um preço fixo face ao Ouro, e funcionava como um mecanismo de travão a expansões económicas desequilibradas, baseadas no crédito.

O período do Padrão Ouro confirma isso mesmo, foi caracterizado por crescimento económico e estabilidade dos preços. Nos primeiros quinze anos assistiu-se a uma leve deflação nos Estados Unidos, e nos anos posteriores a uma leve inflação. Em 1913, o nível de preços era essencialmente o mesmo do que em 1879. No Reino Unido, a história foi semelhante, e os preços entre 1821 e 1913 pouco variaram.

Mas uma economia baseada no Ouro tinha as suas desvantagens. Tinha custos de manutenção elevados (Milton Friedman estimou em mais de 2,5% do PNB) e como obrigava ocasionalmente a reduzir a moeda e a travar a economia, o produto diminuía e o desemprego aumentava. Os economistas pensaram então, que se a falta de reservas de Ouro causava uma retracção na economia, deveria se encontrar um modo alternativo de fornecer reservas aos bancos, de modo a que estes nunca ficassem com falta delas. Se os bancos continuassem a emprestar nunca haveria contracções na economia.

Assim nasceu em 1913 a Reserva Federal, com objectivo de regular a economia. Mas entretanto, em 1914 rebenta a 1ª Grande Guerra e o Reino Unido sai do Padrão Ouro só regressando em 1925. Entre 1925 e 31 os países podiam manter reservas de Ouro, dólares e libras, mas os Estados Unidos e o Reino Unido tinham as suas reservas apenas em Ouro. Entre 1946 e 71, os países tinham uma taxa de conversão fixa face ao dólar e os Estados Unidos mantinham o valor da onça a 35 dólares.

A transformação de uma economia baseada somente no Ouro para uma de moeda-fiduciária demorou várias décadas e só aconteceu definitivamente em 1971, com o final do Sistema de Bretton Woods.

Análise

No período do Padrão Ouro a taxa de inflação anual média nos Estados Unidos nunca foi acima de 4,5% nem abaixo de –4,7% e o desvio padrão foi apenas de 1,98. Por contraste, entre 1971 e 2002, a inflação evoluiu entre 1,6% e 13,5% e o desvio padrão foi de 3,09.

Se analisarmos todo o período pós criação da Reserva Federal (1913) e até 2002, a inflação evoluiu entre –11,5% e 16,3%, com um desvio padrão 5,13.

Por estes números, conclui-se que no período clássico de moeda-fiduciária (1971/2002) e durante todo o período pós criação da Reserva Federal, a inflação teve tendência para ser mais elevada do que no período de Padrão Ouro.

Mas as economias no Padrão Ouro são mais vulneráveis a choques monetários e reais e por isso, mais instáveis no curto prazo. Uma medida de instabilidade de curto prazo é dada pelo coeficiente de variação, que se traduz no rácio do desvio padrão da variação anual em percentagem do nível de preços e a variação média anual em percentagem. Quanto maior o coeficiente de variação, maior a instabilidade de curto prazo. Ora, no período de 1879 a 1913 esse valor foi de 17 face a um valor de apenas 0,8 entre 1946 e 1990.

Para além disso, se analisarmos os ciclos de expansão e contracção dos Estados Unidos desde 1854, comprovamos que os maiores períodos de expansão se verificaram numa economia baseada na moeda-fiduciária. Enquanto que entre 1880 e 1913, período do Padrão Ouro, os ciclos de expansão se prolongaram no máximo durante 36 meses, após 1913, esses ciclos de expansão chegaram a atingir por duas vezes valores acima de 100 meses, na década de 60 e de 90. O coeficiente de variação relativamente ao Produto foi de 3,5 entre 1879 e 1913 e apenas de 1,5 entre 1946 e 1990.

Conclusão

Como primeira conclusão, podemos afirmar que enquanto que numa economia baseada no Ouro, as três funções da moeda são respeitadas, numa economia baseada em moeda-fiduciária, a função de “reserva de valor” é deturpada no longo prazo. Com o Padrão Ouro, o montante de crédito de uma economia é suportado e determinado pelos activos tangíveis da economia, já que cada instrumento de crédito funciona como uma requisição sobre um activo tangível. Numa economia baseada na moeda-fiduciária, essa relação deixa de existir, porque os Governos adoptam políticas de défice orçamental constantes, subsidiados por emissão de obrigações, que apesar de pretenderem representar activos tangíveis, na realidade não representam, porque passa a existir maior montante de empréstimos do que activos tangíveis. A criação de moeda é superior ao aumento dos bens, logo os preços dos activos aumentam constantemente, as poupanças de anos quando trocadas, traduzem-se em menos bens do que inicialmente suposto. Existe uma confiscação de riqueza através da inflação.

Em segundo lugar, temos também de inserir esta conclusão no actual contexto económico. É que apesar dos ciclos de expansão terem sido mais prolongados durante o período de moeda-fiduciária e se terem registado menos choques de curto prazo, a verdade é que o método utilizado de cura em cada recessão e prolongamento de expansão levou a economia dos Estados Unidos a sofrer agora de um problema de endividamento sem precedentes, como foi analisado no artigo “O lado negro dos Estados Unidos”.

O verdadeiro valor do Ouro

Qual seria então o valor de equilíbrio do Ouro em dólares se os Estados Unidos adoptassem o Padrão Ouro. Se tivermos em conta que 1 dólar em 1913 corresponde a 18,49 dólares hoje, e que nessa data a onça de Ouro valia 20,67 dólares, hoje uma onça de Ouro valeria 382,19 dólares.

No entanto, enquanto que as reservas de Ouro dos Estados Unidos aumentaram 255% desde 1913, o agregado monetário M3 cresceu 2.675%, somente no período 1959/2001. Se considerarmos que o crescimento do M3 desde 1913 não foi muito superior ao do período 59/01, apesar do cálculo não ser o mais correcto, resulta num rácio de dez vezes, logo uma onça valeria actualmente perto de 4 mil dólares. (estarão estes cálculos correctos??, eu penso que sim!)


Um regresso ao Padrão Ouro teria custos inevitáveis de ajustamento económico e teria de ser algo aceite por todos, ou quase todos os países. Numa altura em que o mundo se encontra tão dividido entre a Paz e a Guerra, será que faz sentido pensar nisto. Penso que sim, transformações tão profundas como esta demoram anos a se desenhar e executar e vale sempre a pena reflectir sobre elas.

João Henriques
www.clubeinvest.com

Fontes: Reserva Federal dos Estados Unidos
National Bureau of Economic Research
“Gold and Economic Freedom” por Alan Greenspan
“Gold Standard” por Michael D. Bordo