Embora os traders prefiram sonhar com o sucesso, a primeira coisa a fazer antes de começar a transaccionar é calcular a probabilidade de ruína do seu plano de trading.

Para se conseguir o sucesso de longo prazo é preciso transaccionar até ao longo prazo, o que implica investir de uma forma bastante mais conservadora do que se poderá pensar numa primeira abordagem.

A probabilidade de Ruína (R) é dada pela seguinte fórmula:

R = ((1-A)/(1+A))^c

(lê-se 1-A sobre 1+A, tudo levantado a c), sendo A uma vantagem que o trader assume, pela qualidade das suas análises, face a uma probabilidade de 0.5 e c é o número de unidades de trading com que ele começa.

Vamos ver o que cada uma das variáveis representa em pormenor.

A - É a vantagem que o trader assume à partida ter face a uma probabilidade de moeda ao ar, ou seja, 0.5. É uma variável muito subjectiva (a não ser que se tenha um trading system, em que se saiba para o passado qual o rácio do valor de ganhos/perdas), e devemos ser conservadores nisto. Admito que as minhas análises me darão uma vantagem de 0.1 pontos de probabilidade, ou seja, A=0.1. Isto significa que, depois de uma série de muitos trades, espero que o rácio (montante dos ganhos)/(montante dos ganhos+montante das perdas) seja no mínimo igual a 0.55.

Outros traders poderão fazer estimativas diferentes para o cálculo do A, mas tendo em conta duas coisas: o A tem de ser positivo senão nem vale a pena começar. O A tem de ser um valor entre 0 e 1, mas quanto mais baixo fôr provavelmente mais realista e cauteloso está o trader a ser ... o livro sobre money management que estou a seguir aconselha que se considere A=0.1, logo é o que vou fazer.

c - É o nº de unidades de trading com que o trader começa. Imaginemos que ele começa com 10.000 USD, e que irá arriscar em cada trade 1.000 USD. Neste caso temos c=10. Se ele começar com 5.000 USD e arriscar em cada trade os mesmos 1.000 USD o seu c=5 e o seu risco de ruína aumenta exponencialmente, como veremos a seguir.

Exemplo 1:

A = 0.1
c = 10

R = ((1-A)/(1+A))^c = ((1-0.1)/(1+0.1))^10=(0.9/1.1)^10= 0.1344, ou seja, o trader tem uma probabilidade de falir de 13,44%.

Exemplo 2:

A = 0.1
c = 5

R = ((1-A)/(1+A))^c = ((1-0.1)/(1+0.1))^5=(0.9/1.1)^5= 0.3666, ou seja, o trader tem uma probabilidade de falir de 36,66%.

Por aqui vemos que com quanto menos capital o trader começar naturalmente maior a sua probabilidade de ruína. Vemos também que quanto menos arriscarmos em cada trade (do nosso capital total) menor a probabilidade de ruína, ou seja, maior a probabilidade de sucesso.

É claro que diminuindo a probabilidade de ruína diminuimos também o potencial do investimento, pelo menos na velocidade com que atingimos os nossos objectivos. Mas se pensarmos que para atingirmos os objectivos nunca poderemos falir, vale a pena trasaccionar tendo sempre em mente uma probabilidade de ruína baixa.

Eu por exemplo conto iniciar um plano especulativo com 50.000 USD. Penso que me sentiria confortável arriscando apenas 1.000 USD em cada trade, ou seja, teria 50 unidades de trading, c=50.

Qual é a minha probabilidade de ruína?

R = ((1-A)/(1+A))^c = ((1-0.1)/(1+0.1))^50=(0.9/1.1)^50= 0.00004, ou seja, tenho uma probabilidade de falir de apenas 0,0044%. Parece-me demasiado conservadora e estaria sempre a ser stopado arriscando tão pouco em cada trade, o que poderia colocar em causa a minha assumpção inicial de A=0.1.

Vou experimentar um c=20:

R = ((1-A)/(1+A))^c = ((1-0.1)/(1+0.1))^20=(0.9/1.1)^20= 0.0181, ou 1,81%. Posso viver com isso, acho que é uma probabilidade de ruína aceitável. Isto significa que, começando com 50.000 USD, não posso arriscar mais do que 2.500 USD por trade (para ter as tais 20 unidades de capital de trading, c=20, e um R=1,81%).

Outra questão que se levanta e certamente pulula na mente de muitos traders é a seguinte (imaginando um exemplo):

- Um trader começa com 10.000 USD e utiliza uma certa alavancagem, digamos de 3X (significa que em termos de subjacente está a investir com 30.000 USD). Depois de vários trades bem sucedidos, atinge os 20.000 USD.

E agora, para duplicar novamente o capital com a mesma facilidade só precisa de duplicar o nº das suas posições, pois tendo uma alavancagem constante o risco em que incorre é o mesmo, certo? Não, errado. O risco de ruína sobe bastante caso o trader use uma alavancagem constante.

Repare-se que bastaria ao trader duplicar o capital 7 vezes para ir dos 10.000 aos 1.280.000 USD. Apenas 7 vezes, desde que mantenha constante a alavancagem. Porém, fazendo isto, o seu risco de ruína é de tal forma elevado que a maior probabilidade vai para a falência antes que o objectivo seja atingido.

Agora tenho de ir almoçar, mas logo à tarde virei completar este artigo com a fórmula do risco de ruína neste caso de sucesso do trader. Para já deixo só um cheirinho, através de mais um exemplo:

- Imaginemos que o trader António consegue, alavancando 3 vezes, ir dos 10.000 aos 20.000. Demorou 10 trades, com um lucro médio de 1.000, a conseguir a proeza de duplicar o capital. Agora o António pensa assim: «para demorar os mesmos 10 trades a ir dos 20.000 aos 40.000 basta-me duplicar o nº de contratos que transacciono, desta forma cada trade dar-me-á um lucro de 2.000»). Porém, agindo assim, o António está a incorrer no seguinte erro:

É que ele precisou de 10 trades vencedores para chegar aos 20.000, e agora bastam-lhe 5 trades perdedores para voltar para os 10.000. Está a diminuir consideravelmente as suas chances de sucesso no longo prazo ...

Voltei agora do almoço e parece que perdi a capacidade de compreender aqui a fórmula do livro para o caso de sucesso do trader. Tenho de aprofundar muito mais este tema, de qualquer forma este é o primeiro artigo sobre money management e ficaram algumas pistas.

Para mim é importante reter o seguinte:

1) Vou abrir não 1, mas 2 contas na Tradestation Securities. Uma para position trading que será baseado nas minhas análises diárias ao S&P, e outra que se baseará num Day Trading System totalmente automático que estou a engendrar. Isto porque não consegui resolver o dilema position/day trading. Assim farei os dois, cada um à sua maneira e recorrendo a ideias diferentes. Colocarei 25.000 USD iniciais em cada uma das contas.

2) O meu risco de ruína na conta de position trading aumenta dos 1,81% calculados à pouco, para R = ((1-A)/(1+A))^c = ((1-0.1)/(1+0.1))^10=(0.9/1.1)^10= 13,44%. Isto porque o capital inicial passou para metade. É demasiado risco. Tenho de diminuí-lo diminuindo o montante que arriscarei em cada trade, ou seja, o meu dollar stop ! Como está teria um dollar stop em cada trade de 2.500 USD, se o reduzir para 2.000 USD, o meu risco de ruina já passa para 8,14%. Já é mais aceitável, mas mesmo assim elevado, tenho medo. Vou passar para 1.500 USD, e o risco de ruina sai-me nos 3,53%, perfeito ! Mas desta forma, transaccionando 5 e-mini S&P´s (que é o máximo que conto transaccionar no primeiro ano), o meu stop loss teria de estar fixo nos 6 pontos (6 pontos com 5 contratos «valem» 1.500 USD - cada ponto vale 50 USD por contrato).

3) Se calhar com 6 pontos de stop loss arrisco-me a não conseguir um A=0.1. Se aumentásse o stop loss talvez tivésse um A superior. Trade-offs ... mas eu já tenho uma ideia de solução na cabeça, que divulgarei em textos seguintes.

Os leitores que me desculpem estar a usar esta Rubrica (Mensagem da 1/2 Noite) também como um bloco de anotações e diário para o meu plano de trading pessoal, mas julgo que os próprios leitores podem retirar ilacções ou vantagens de estarem a ler um trader profissional a construir aquilo que penso será uma estratégia de trading e análise coerente em termos de sucesso de longo prazo.

Cumprimentos.
César Borja