Autor: César Borja
Data: 09-07-2004 17:37
O Presidente da República decidiu, no exercício dos seus poderes constitucionais, solicitar à maioria no Parlamento que indique um novo Primeiro-Ministro e um novo Governo. Devemos todos respeitar e acatar a sua decisão.
Porém discordo profundamente da decisão e ainda mais dos argumentos apresentados.
Argumento nº 1:
«A estabilidade política é importante para o desenvolvimento do país»
Estabilidade, quando o país está no ponto em que está, é o pior que se pode pedir. Se o país está mal, como é visível em qualquer indicador económico (crescimento do PIB, nível de vida, desemprego e porque não, PSI20), apenas uma mudança, uma nova dinâmica e novas políticas o podem tirar deste estado. Mais do mesmo, desta estabilidade podre na mediocridade, levará a resultados na melhor das hipóteses não piores do que os do passado.
O que está mal deve ser mudado, não mantido. Quem governa mal deve sair, não ser convidado a continuar.
Argumento nº2:
«O Governo foi eleito para um mandato de 4 anos com um programa eleitoral que deve continuar a ser cumprido»
O Governo PSD/CDS não foi eleito, partiu de um arranjo pós-eleitoral.
O programa eleitoral não estava a ser cumprido. Em campanha eleitoral, Durão Barroso prometeu baixar os impostos, semanas depois de estar no poder subiu o IVA dos 17 para os 19%. Prometeu o saneamento das contas públicas e o cumprimento do Pacto de Estabilidade, e isso cumpriu, mas devido a aldrabices contabilísticas e à venda ao desbarato do património do Estado, com grande prejuízo para os portugueses (CREL não tinha portagem, passou a ter uma portagem de 2.7 €. Vendeu a rede fixa à PT, pondo em causa a liberalização do sector das comunicações fixas).
No exercício do poder, a coligação PSD/CDS fez muito pouco de positivo. A Justiça, funciona melhor? A Saúde, está melhor? O Desemprego baixou? A Administração Pública teve alguma reforma? O peso do Estado na economia diminuiu? Ouve alguma iniciativa que promovesse o empreendedorismo em Portugal? Os subsídios da UE, em nome dos quais se pediram tantos sacrifícios aos portugueses, foram para onde? Onde é que está a obra, o que é que foi feito, alguém que mencione alguma coisa !
ZERO.
Argumento nº3
«As eleições podem ter grandes custos económicos, agora que estamos na retoma»
Porquê que as eleições têm grandes custos económicos? Porque demoram muito tempo? Porque não fazê-las mais depressa?
E os custos económicos de ter um Governo que não foi eleito, que se continuar com as mesmas politicas governará mal e contra o interesse de Portugal?
A equação que deveria estar em cima da mesa, e aquilo que o Presidente deveria querer da maioria não seria mais da mesma política desastrosa mas sim uma política diferente, virada para o crescimento económico, para a iniciativa pública e privada, preocupada com o nível de vida dos cidadãos.
Para o PSD/CDS de Durão/Portas as pessoas interessaram sempre pouco. «O desemprego vai aumentar», como se não se pudesse fazer nada para o evitar e não fosse um drama para quem o sofre na pele. «A economia só vai recuperar depois da Europa», colocando-nos como um cachorro que está atrelado ao dono, sem vontade própria, sem inteligência.
Agora, deixando este pântano e olhando para a frente vejo o Santana. Confesso que, apesar de tudo, não posso deixar de ficar animado. Qualquer um seria melhor que Barroso, que é um tachista exclusivamente preocupado com o seu ordenado, sem carisma, sem carácter. Foi escolhido para a Presidência da Comissão Europeia precisamente porque tem fama de não fazer nada. De ir atrás dos mais fortes, como aconteceu na questão do Iraque, sem pensamento próprio. Alemanha, França e Reino Unido agradecem, querem voltar a ter mais poder sobre os destinos dos seus povos, já ficaram escaldados com a história do Pacto de Estabilidade.
Mas voltando ao Santana, nas palavras de Barroso, «um misto de Zandinga e Gabriel Alves». Não sei do que é capaz, conheço pouco. Fala muito de ideias na política, mas nunca lhe vi nenhuma ... praticamente ainda não disse nada de concreto. Vivi em Lisboa até recentemente e confesso que até estava a apreciar a sua gestão da Câmara da capital. Concordo com as obras que propôs, está a fazer alguma coisa, ou pelo menos tentou fazer ...
Portanto fica o benefício da dúvida, com uma certeza: este governo será certamente melhor do que o anterior, porque pior não é possível (Portugal já foi o país cuja recessão foi mais grave no conjunto de 34 países da OCDE).
Mas Santana devia ter ido a votos.
Só mais uma palavra para Ferro Rodrigues, nunca teve muita chama, mas aguentou de tudo durante o último ano ... e ainda teve a maior vitória eleitoral de sempre do PS. Não entusiasmava, mas sempre me pareceu sério e foi um bom ministro da Segurança Social. Agora que venha o Sócrates que sempre deu baile ao Santana nos debates da RTP.
Enfim, isto já vai longo, qualquer que seja o Governo nós já demonstramos por diversas vezes na história que somos um povo com brio, por isso Viva Portugal, Viva nós !
César Borja
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